Cinema · Crítica · Sem categoria

Os fantasmas de Blade Runner 2049

blade4

A Las Vegas acachapante criada por Dennis Villeneuve e Roger Deakins para Blade Runner 2049 parece algo que nasceria se os sonhos de Scott Fitzgerald cruzassem com os sonhos de Lovecraft. Opulente e atrativa ao mesmo tempo em que nos sufoca com sua esterilidade paradoxalmente fértil, a cidade dos prazeres se ergue diante de nossos olhos como se estivéssemos diante de um ícone de um passado distante que nos surpreende com uma sobrevida inesperada.

Em suma, um bom lugar para tomar um uísque com Harrison Ford e seu vira-lata sarnento.

E é nesta cena, icônica só por existir, que a sequência do clássico cult se aproxima de sua fonte original. Em meio ao deserto de uma muito extrapolada e pós-apocalíptica Las Vegas, o Policial K, personagem vivido por Ryan Gosling, caminha com nossas expectativas (num plano subjetivo em que assumimos o ponto de vista no movimento da câmera em travelling, dinâmica que será repetida em rima visual com o próprio Ford), até um enxame de abelhas que parecem cultivadas por gigantescas estátuas de mulheres em posições sexuais. É a vida que, com a licença de Ian Malcolm, “encontrou um jeito”. Pelo menos até o momento em que ouvimos algumas notas num piano ao fundo e então esbarramos em Rick Deckard, antigo Blade Runner.

blade.jpg

É só nessa Las Vegas desabitada pela incidência radioativa de uma “bomba suja” em algum momento do futuro distópico do universo de Blade Runner que o filme de Villeneuve se encontra com seu antecessor. Nesse momento já estamos no final do segundo ato do filme e toda uma história com o Policial K já foi estabelecida. Deckard e K travarão uma bela sequência de luta entre as luzes de fantasmas do passado. Elvis, Sinatra e Marylin ainda estão vivos em 2049, mas são fantasmas, talvez como o próprio Deckard e K. Assombrados por um passado que nunca tiveram.

Essa é a terra de ninguém de Blade Runner 2049. A Las Vegas desolada parece estranhamente humana se comparada à Los Angeles cyberpunk que ambienta a maior parte do filme. Uma cidade mais desoladora que a que vimos em 2019 do filme original. Um lugar onde chove o tempo inteiro e você nunca sabe se são cinzas ou água contaminada. Onde as panorâmicas que sobrevoam sua arquitetura escurecida são trespassadas pela trilha agressiva de Hans Zimmer e Benjamin Wallfisch (e sim o fantasma de Vangelis percorre os acordes o tempo inteiro) que parece nos dizer o quão terrível é estar do lado de fora das caixinhas do mundo compartimentalizado do futuro, onde os lugares fechados parecem servir de proteção assim como as paredes gigantescas nas praias da Califórnia, instaladas para impedir que as marés nos engulam.

Entre essas reminiscências atualizadas do filme de Ridley Scott ficamos sabendo que em 2049 os replicantes ainda existem, mas agora são mais obedientes e menos propensos a revoluções. Isso se dá porquê o fator Tyrell de expectativa de vida curta foi eliminado e como não estar sob controle quando não se sabe quanto tempo ainda se tem nesse mundo? Ou será o contrário? Este mundo não é muito, mas é o que há. O industrialista mogul da tecnologia Niander Wallace (Jared Leto) comprou os espólios da Tyrell falida após um blackout geral causados pelos últimos replicantes criados pela antiga empresa. A derrocada de um modelo dá início a algo maior e mais terrível. Assim como a sequência de um filme?

bladdd.gif

Mas tudo isso nos é apresentado nos créditos pré-filme. Assim como no original, somos jogados nesse mundo com pouca cerimônia. A primeira cena de Blade Runner 2049 no entanto ecoa a de seu sucessor. Um olho feminino, que contém o universo, se abre. Estamos prontos para essa viagem. Um mundo desolado, mas desta vez branco como a enve, incrivelmente claro e sem amarras. Uma fazenda de proteínas sintéticas, daquelas desenhadas por Wallace.

O Policial K é um Blade Runner, mas diferentemente do mistério do filme original ele se conhece como replicante que aposenta replicantes. No caso do prólogo, um antigo Nexus 8, Sapper Morton, vivido pelo cada vez mais surpreendente Dave Bautista. Sapper se esconde como cultivador, mas tem um passado rebelde e K está ali para retirá-lo, mas não antes de ouvir que assim o faz pois nunca presenciou um milagre.

K parece sentir estas palavras. Ao voltar à base da polícia de Los Angeles ele sofre todos os ataques como skin-job que é. Um pele-falsa que mata sua própria espécie, ele é submetido a um teste pós-traumático recheado de versos retirados de Fogo Pálido de Nabokov. Uma espécie de Voight-Kampf com lasers, o teste avalia se as emoções vividas pelo replicante Blade Runner não desestabilizaram sua auto-consciência subserviente. Apesar das palavras de Sapper, K. passa no teste, ele faz o seu debriefing com a Capitã Joshi (Robin Wright) e volta para seu apartamento caixa-de-fósforos onde o filme parece ter seu primeiro respiro positivo.

blade-runner-2049-image-8.png

Lá ele encontra Joi (vivida pela genial Ana de Armas), uma inteligência artificial que se manifesta em holograma através de um console que é ironicamente um dos utensílios mais “vivos da casa. Após uma ducha de segundos com água “99% tratada” K começa sua primeira dinâmica com Joi, algo que se torna um dos grandes atrativos do filme, a dinâmica entre Ryan Gosling e Ana de Armas funciona como uma luva. A I.A. oferece um “jantar” a K. Uma espécie de holograma de um típico prato americano, um steak com batatas, um copo de uísque, um cigarro e Frank Sinatra na vitrola. K oferece em troca um presente: um dispositivo móvel que permitirá que Joi possa ir “aonde ela quiser”. Numa cena maravilhosa, ela escolhe ir ao terraço na chuva infinita de Los Angeles, onde os dois ensaiam uma cena romântica interrompida bruscamente pela realidade. Uma chamada da Tenente Joshi o chamando de volta ao trabalho. O quase beijo interrompido fica pendurado na tela como uma das cenas mais tristes e desoladoras do cinema. O androide subserviente é chamado à realidade dum sonho enquanto Joi permanece paralizada na chuva como se num sonho impossível até ser desligada por K, a quem ela chama de Joe (numa reminiscência a Joseph K?), ressoando os acordes de Pedro e o Lobo de Prokofiev no alarme de desligamento do sistema Wallace que opera Joi. Afinal de contas ela também é fruto do industrial.

bla.gif

E quem é Wallace? Mesmo com a fraca atuação de Leto, o vilão se estabelece, não como contraposto, mas como fantasma tecnológico que ressoa por todo o mundo. Wallace é o voo de Ícaro da humanidade. Seu plot é quase que periférico, um motivador narrativo como comentário crítico do controle da informação de quem nós somos e o que somos. Há muito a ser explorado no que é apenas sugerido sobre Wallace em Blade Runner 2049, porém os cento e sessenta minutos do filme não permitem uma maior elucubração. De qualquer forma, o antagonismo de Wallace não é necessariamente o ponto do filme, então seu caráter quase etéreo (apesar da grosseira presença de Leto) é acertada.

Wallace tem seu agente, a replicante Luv (Sylvia Hoeks) que se torna a verdadeira nêmesis de K. A atriz holandesa, mais uma escolha acertada de elenco, tem ares de Rutger Hauer, o Roy Batty do filme original. Como mais uma das releituras que são mais espelhos entre os filmes do que releituras, a androide Luv, a mando de Wallace, mas com motivos pessoais bem claros, irá seguir os passos de K na investigação que será a força motriz do filme: o estranho ossuário encontrado no jardim de Sapper que contém verdades escondidas que podem mudar a forma de funcionamento do mundo.

blade2.png

As ambiguidades são o que regem este filme brilhante que tem muito mais de filme autoral do que de sequência de um filme antológico. Blade Runner 2049 se quer um filme próprio que, como seu tema sugere, se resignifica através dos seus antecessores. O filme não lhe requer conhecimento da obra passada, mas ela está ali o tempo inteiro como o espelho do olho de quem assiste. Afinal Blade Runner sempre foi uma história sobre perspectivas. O fato de o mistério de Deckard ser um replicante ou não ser reafirmado como mistério em 2049 é uma das provas disso.

Como filme de perspectivas, BR2049 é um filme de significados. Um dos mais belos está no nome de K. Como replicante ele não o possui (ao contrário de Luv, por exemplo, ou até mesmo da A.I. Joi, que apesar de ter um nome genérico, é seu nome), sua identificação é apenas um código. Oficialmente KD6.3-7. É chamado de K para encurtar, o que nada mais é que uma alusão ao segundo nome do criador deste universo, Philp K. Dick. K é de Kindred, que em inglês significa “parente”, o que é um singelo toque à história de K.

bladerr.jpg

Villeneuve faz o que uma sequência deve fazer: extrapolar o original e ampliar seus horizontes, sem ser uma mera cópia do original. E ainda vai além, transporta o mundo de Blade Runner para sua visão singela e humana do estranhamento entre duplos. É um tema recorrente de seus filmes. Está em tanto em Incêndios, com seu choque de culturas e em A Chegada com seu embate por comunicação. O diretor canadense, no entanto, parece ter um gosto pelo simbólico traduzido de forma brilhante no seu estilo de planos abertos e contemplativos que cai como uma luva no mundo que requer sua atenção aos detalhes que ressignificam tudo. 2049 é um mundo próprio que se entrelaça naquele de 2019 como a cena em que Joi se entrelaça na replicante Mariette para que K tenha uma noite de amor, num misto de verdade melancólica sobre o futuro, carinho e solidão terrível. Nesta que deve ser uma das cenas mais icônicas de nossa década o filme de Villeneuve se resume com maestria de significados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s