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Mulher Maravilha e o No Man’s Land

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por Daniel Feltrin

A especifidade de gênero da expressão “No Man’s Land” se perde na tradução para o português . A Terra de Ninguém, o terrível descampado entre os exércitos inimigos que exibia em corpos finalmente desprovidos de cores e nacionalidades, a calamidade que foi a Grande Guerra. É nesse descampado que o filme de Patty Jenkins mostra sua cena mais emblemática e memorável. Diante do horror da destruição humana, a Mulher Maravilha ascende magnânima e ao mesmo tempo humana, demasiadamente humana.

No original em inglês vira uma espécie de trocadilho ao mostrar que ali pode ser a terra de homem nenhum, mas a mulher maravilha não é um homem, portanto ela é única que a pode desbravar. Há uma sutileza gritante em mostrar a cena como a primeira prova de fogo do estranhamento natural que a Princesa Diana sofre quando vem ao mundo dos homens. Steve Trevor, o seu guia (acima da média, porém), um simples homem, tenta dissuadir a heroína da ideia suicida que é enfrentar o horror inumano. Sem sucesso. Ela precisa se tornar a Mulher Maravilha e para isso nos oferece o momento mais DC do DCEU: se torna uma deusa.

No Man’s Land não é só a terra onde os homens não passam, mas uma Mulher sim. É a terra onde a humanidade da Mulher Maravilha a faz divina. Enquanto o Superman não consegue lidar com todo seu poder e o Batman teme a divindade e toda a falta de importância com os seres menores que o Homem de Aço representou até agora, Diana, em toda a sua inocência descende ao plano dos homens, o escuro e sombrio mundo da humanidade, para brilhar a verdade.

A verdade que nos cega no icônico laço que derruba os inimigos sem esforço está estampada nos olhos de Trevor. Interpretado de forma brilhante por Chris Pine, o capitão está, com o poder do trocadilho, maravilhado. Uma deusa caminha entre nós e só lhe resta ser humano e segui-la, pois Diana não está confusa. A Mulher Maravilha caminha pela Terra de Ninguém, pois além dela exitem muitos e sua compaixão divina só não é maior que sua coragem.

Esse é o trunfo deste filme que esperamos 75 anos para ver. A bravura de Mulher Maravilha traz de volta o heroísmo que andava esquecido no mundo dos filmes de super-heróis. Não o heroísmo da fórmula Marvel que é terreno e se aproxima de nós mesmos. É o heroísmo clássico dos personagens da DC: puro e magnânimo como no Super-Homem de 78, que serviu de inspiração a Jenkins.

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Detesto esse tipo de comparação, mas a concluo apenas como forma ilustrativa. Nos seus maiores trunfos a Marvel faz de seus heróis terrenos uma elevação ao magnânimo ao se aproximarem de nós. O comum que se torna excepcional. A DC é o modelo, no entanto, a divindade que é exemplar. Super-Homem, Batman e Mulher Maravilha são o que seríamos se fossemos perfeitos, portanto nada mais natural que sejam mais humanos que nós mesmos. Eles habitam a No Man’s Land porque nós não podemos.

A curva dramática da personagem é a transformação de Diana em uma de nós. A Diana que vemos enfrentando o Apocalypse ao lado do resto da Trindade da DC. Mas para isso ela encontrará o horror e o egoísmo, mas também o amor, a amizade, a compaixão e o sacrifício.

No mais, Mulher Maravilha tem lá seus defeitos. O terceiro ato é desequilibrado na sua virada um tanto previsível. A megalomania de seu vilão encobre o propósito da curva dramática de Trevor e deixa o final meio ruidoso. Há uma dissonância clara nas atuações que ficam claras nos diálogos de Robin Wright (ótima) e Connie Nielsen e Chris Pine e Gal Gadot. Enquanto a atriz israelense esbanja carisma e altitude nas cenas em que é a Mulher Maravilha, a falta de treino dramático fica um pouco evidenciado nos diálogos com outros atores. Porém, nada que arruíne o poder do texto que, apesar de didático e simples, é redondo.

Talvez o pior do filme é que ele seja uma realização segura. Depois de três filmes tão divididos a DC/Warner optou por um filme menos ousado. Não há nenhuma revolução feminista, apesar das piadas e sacadas de empoderamento do filme. No final há mais um gosto de mensagem anti-bélica. Mulher Maravilha joga no que se espera e faz bonito com todos os elementos clássicos da aventura, mas fica a sensação que poderia ter ido mais longe. Talvez, quem sabe, a No Man’s Land em que brilhou de forma tão exemplar.

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