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Power Rangers é o filme adolescente perfeito para 2017

Quando se anunciou um novo filme da franquia de tokusatsu (estilo de produção japonesa comumente relacionada a live-actions de super-herói) da Saban, uma certa desconfiança parou no ar. Afinal, Power Rangers não só foi e é um seriado querido para muitas gerações, mas também faz parte de uma cultura de nicho que envolve fãs dedicados. Para o público geral, a desconfiança passava pela ousadia de se transformar um show voltado para crianças em um filme que busca alcançar o espectro maior do espectador de cinema blockbuster. O risco era grande, mas a Lionsgate respondeu à altura. Power Rangers é um filme adolescente que mira na nostalgia e acerta na temática universal da amizade e pertencimento, sem deixar de vender muito boneco para crianças, pequenas ou grandes.

Não que o filme não possua defeitos.  Para citar um dos mais óbvios, podemos destacar a diminuta sequência de ação final que em contraparte com a longa exposição dos personagens deixa o filme um pouco arrastadp, sem recompensar totalmente a espera da catarse. Muito do problema está relacionado aos efeitos que, devido ao orçamento parco para um primeiro filme de franquia (o que se diz é que a Lionsgate pretende 7 aparições da equipe na tela grande), ainda não empolgam. É um filme de origem que pretende (e deve conseguir) se desenvolver em outra sequências, porém o fã poderia ter tido um pouco mais dos heróis totalmente equipados na tela.

Já o desenho de produção tem seus altos e baixos: os uniformes funcionam organicamente de forma que a hibridez tecno-alienígena de seu design salte aos olhos nas batalhas. É uma diferença enorme das armaduras duras e desengonçadas que quem for mais velho e foi no cinema em 95 pra ver o filme anterior viu. Porém, os Zords estão bem desconjuntados e só fica possível definir que animal é qual pela cor (e se você lembrar qual dinossauro cada ranger representa). Mesmo que a dinâmica do T-Rex e do Pterodáctilo funcionem bem na batalha, os outros robôs parecem meio sem propósito quando enfrentam o inimigo. O Tigre Dentes-de-Sabre e o Mastodonte só se destacam num ataque e o Triceratopes parece estar ali só pelas piadas do Billy.

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No entanto, Goldar está conceitualmente perfeito e os planos com o ponto de vista do espectador no chão, aqueles que parecem que você está vendo a ação com monstros e robôs gigantes presencialmente, podiam figurar em mais número. A luta final, embora tímida, é bem empolgante, rendendo os aplausos dos moradores da Alameda dos Anjos, brilhantemente transformada numa pacífica cidade portuária. Entre eles estão os atores Jason David Frank e Amy Jo Johnson, respectivamente os lendários rangers verde e rosa da série original, no maior fan service do filme.

Mas o maior trunfo do filme está na harmonia do seu elenco e suas novas histórias de fundo. Power Rangers sempre foi, dadas as suas proporções, uma história adolescente, porém, nos anos 90, o positivismo ocidental refletido no fim da Guerra Fria parecia tratar as temáticas de forma mais descompromissada. Claramente despretensiosa, a série original sempre se dedicou à temáticas mais didáticas e retratou as minorias de forma mais estereotipada do que representativa. Não que houvesse grandes problemas na abordagem, mas pra quem era mais atento, o fato de um negro, uma asiática e um nativo americano interpretarem respectivamente os rangers preto, amarelo e vermelho, saltava aos olhos. A “vista grossa” parece ser mais uma obra de seu tempo do que um preconceito, mas os estereótipos e o didatismo gritante não funcionam hoje.

Para nossa sorte, a atualização retirou dos personagens clássicos o virtuosismo moral e os jogou para o mundano. É como se transformassem o clima Malhação da série original e fizessem algo mais Skins (drama adolescente britânico que aborda temas mais disfuncionais). Jason é o quarterback que era a grande esperança branca de Alameda dos Anjos cometeu um ato de vandalismo adolescente e tem que aturar com a decepção da cidade. Kimberly é a garota popular que fez algo horrível (é um spoiler, então não contamos) e agora foi excluída. Billy é o nerd com autismo leve que naturalmente é a presa fácil da escola. Trini é a garota invisível que muda de escola a cada ano e é (finalmente!) a primeira super-heroína LGBT do cinema. Mesmo Zack que tem um plot bem subdesenvolvido é o garoto que mascara seus medo constante de perder a mãe com uma doença grave cometendo loucuras.

Como o trailer já sugeria, três deles se conhecem na detenção, da forma mais clássica: Jason defende Billy do valentão da detenção e os dois criam um laço. Kimberly comete o ato rebelde cortando os cabelos minutos antes e se destaca. Mais tarde vão se reencontrar na mina de ouro da cidade, Billy acompanhado de Jason, convencido pela oferta de burlar a coleira eletrônica que usa como punição. Kimberly está mergulhando no riacho perto, Trini pratica uma espécie de dança de arte marcial e é observada por Zack que sempre frequenta o local para fugir da verdade em casa. Billy está em busca de uma antiga obsessão de seu falecido pai sobre a história da Alameda dos Anjos e ao explodir a parede da mina para encontrar a verdade reúne os cinco na confusão. Ali estão as moedas que cada um possuirá para ser um Power Ranger.

Criado o laço entre os protagonistas, o segundo ato desenvolve o relacionamento entre esses outsiders. Eles encontram a nave perdida que serve como o famoso Centro de Comando no filme. Lá conhecem Alpha, a inteligência artificial que assiste a Zordon, o antigo ranger vermelho que foi traído por Rita Repulsa, a antiga ranger verde, e que, ao tentar pará-la, é condenado a um limbo entre a existência e a tecnologia alienígena da nave. Os adolescentes conhecerão o legado dos Power Rangers. Eles herdarão tal poder, mas primeiro terão que se preparar, treinando física, mental e emocionalmente para poder acessar todo o poder que essa responsabilidade lhes confere.

Como num Clube do Cinco de super-heróis, o clima de Power Rangers é mesmo de um filme de John Hughes.  Jason, Kimberly, Billy, Trini e Zack terão que se conhecer e superar seus próprios demônios em equipe para poder atingir todo o potencial que possuem. Esse direcionamento poderia ter condenado o filme, porém a química excelente dos atores, mais a cuidadosa abordagem dos temas adolescentes criam o carisma necessário para a estória se tornar empolgante. Operando no limite do piegas e do PG-13 (censura americana que engloba todas as idades e que muitos dos blockbusters tentam se enquadrar) com suas piadas e violência, a narrativa tem um dinamismo que dá coesão ao produto final.

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O DNA da franquia sempre sugeriu a mudança geracional e o conceito de passada de bastão é o o tema-motor do filme. Nesse sentido, Power Rangers é bem sucedido em atingir uma nova leva de fãs sem perder os antigos. A narrativa Hughesiana em meio à profusão de serviço aos amantes da série clássica entrega um filme divertido que abusa (de forma boa) da nostalgia das narrativas consagradas nos anos 80 e 90 nos remakes e revivals, tão comuns hoje em dia. O resultado é mais uma franquia de sucesso e um filme divertido, mas, mais que isso, é um filme adolescente que tem tudo para marcar uma geração com seus personagens carismáticos tão próximos dos seus jovens espectadores.

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