Cinema · Crítica

Shyamalan Remontado, uma (quase) crítica de Fragmentado

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et cetera

por Daniel Feltrin

O diretor M. Night Shyamalan ficou marcado em sua carreira pela presença predominante de grandes viradas de enredo que ressignificavam as tramas bem construídas de seus filmes. Tal característica foi, com o tempo, a sua elevação, a sua danação e agora a sua redenção. Shyamalan abraçou sem medo tudo aquilo que lhe fez um diretor querido e odiado no seu mais novo filme, Fragmentado, e entregou uma história que dialoga com toda a sua obra e com o público de forma excepcional.

O diretor de 46 anos ficou conhecido para o grande público no dia de seu aniversário de 29 anos quando estreou O Sexto Sentido em 1999. A idade que carrega uma carga exotérica de começo da maturidade possui todo o misticismo de sua obra que começaria a ser construída ali. Sexto Sentido cativou o público não só por sua revelação final, mas pela dinâmica entre os atores e a forma tímida, porém desavergonhada de ser sobrenatural. Numa época em que o ceticismo havia empurrado os filmes fantásticos para a categoria de obras B, a película estrelada por Bruce Willis e o jovem Haley Joel Osment trouxe uma nova visão para a clássica reflexão sobre o medo de descobrir quem somos e tudo o que está ao nosso redor.

Porém, filmes não são apenas o produto final e as reflexões que eles nos trazem. Filmes também são como são vendidos. O cinema americano desde o começo distanciou-se do irmão europeu pela capacidade de se vender às grandes massas. Ao mesmo tempo em que isso popularizou a mídia narrativa e a desenvolveu, também trouxe à tona o conceito de fórmula em oposição ao de formato. A fórmula é algo pronto e estático que comprovadamente funciona, mas não sai dos elementos já conhecidos. O formato é o arquétipo, um esqueleto cultural que traz toda a tradição, mas apenas constitui a base para a construção de novas ideias.

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I see plot twists!

O que foi passado ao grande público foi a fórmula Shyamalan. O marketing de seus filmes focava em vender um filme de suspense com uma grande virada no final e o público em geral queria ser surpreendido. Acontece que o diretor estava mais interessado em criar sua própria mitologia e desenvolver os assuntos que lhes eram caros, assim como todo artista busca fazer. Esse ruído entre produto e expectativa foi causando estranhamento, pois, cada vez mais autorais, os filmes de Shyamalan destoavam do marketing que os vendia.

Após Sexto Sentido, produziu Corpo Fechado que teve uma boa recepção, mas não a unanimidade do público. O tema do medo de descobrir quem somos de verdade é levado a outro nível nessa discussão metalinguística com a mídia dos gibis de heróis. O filme usa a característica da narrativa quadrinesca de estabelecer um código para o mundo e brinca com isso o tempo todo, o que é seu trunfo. É uma estória de super-herói com a sutileza de uma reflexão filosófica, quase religiosa. Não é à toa que o vilão do filme é o personagem que mais sabe quem é.

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Sam Jackson como um dos fundadores do 4chan

Então veio Sinais, o primeiro filme de Shyamalan que é escancaradamente aquilo que diz ser. As temáticas ainda estão lá (o homem de Deus que não tem mais fé, o jovem que ainda não se encontrou na vida), mas em nenhum momento a narrativa busca desvendar uma trama Orsonwelliana mostrando que tudo no final era uma brincadeira. A invasão alienígena e a prova cabal de um poder maior que vai além dos humanos é mostrada no filme como exatamente isso: a invasão do outro. A temática da água (recorrente na mitologia shyamalaniana) não é um plot twist, mas simplesmente uma arma de Tchekhov (recurso narrativo que dita a ideia que se algum objeto é introduzido na trama, ele será utilizado de alguma forma), além de ser uma referência a uma das maiores estórias de ficção científica: Guerra dos Mundos.

Essa “obscenidade” dividiu o público que se sentiu ludibriado pelo que era vendido nos cartazes, trailers e em toda a mística que havia se criado em cima do diretor americano. Sinais é o primeiro filme de Shyamalan que quem gosta, ama e quem não gosta, odeia. Haveriam outros.

A vila, que ironicamente talvez seja o seu filme mais bonito estética e narrativamente, é um dos seus fracassos na crítica popular e jornalística. A Dama da Água não teve todo o hype dos quatro filmes anteriores e a impressão que se tem é que pouca gente viu. No entanto, apesar da desconfiança Dama ainda não tinha elementos que todos poderiam classificar como um filme ruim. Foi só uma estória que não empolgou o grande público.

A derrocada começou com Fim dos Tempos. A estória de um mal invisível que faz a humanidade tirar a própria vida é digna de um episódio clássico de A Zona da Imaginação e não condiz com toda a negatividade que o filme recebeu, mas o elenco todo desconjuntado e completamente fora do ritmo falha em trazer a dramaticidade que a história necessita. A característica de comédia dos atores escolhidos para viverem os dois protagonistas traz o efeito contrário que o filme queria. O ridículo foi o que chegou ao público e Shyamalan foi taxado como o diretor que não consegue sair de si mesmo.

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500 mortes com ela

O Último Mestre do Ar confesso que não assisti, mas o que ouço do filme me faz pensar que é uma aventura  que não consegue se libertar das próprias amarras assim como o nome da franquia Avatar que o diretor não pode usar por causa do filme de James Cameron. Depois da Terra tem gosto de filme encomendado e é uma estória que você esquece logo que sai do cinema. Ambos parecem retratar um artista que se tornou confortável em si mesmo e seu próprio nome e ia vagarosamente caminhando para o ostracismo.

No entanto, como numa de suas viradas tão emblemáticas, Shyamalan volta com tudo quando ninguém mais esperava.

Tal volta começou antes, é claro. Foi quando o perdido Shyamalan encontrou uma nova casa: a Blumhouse. A produtora americana que é conhecida pelas produções de baixo orçamento que não só tem grande recepção do público, mas também da crítica, foi o lugar perfeito para abrigar os filmes de Shyamalan. Assim como o diretor, a produtora vinha redefinindo o gênero do terror e como vendê-lo ao público. Por ser uma empresa que trabalha com orçamentos baixos, a Blumhouse preza pela liberdade da criação, o que tem dado muito certo até agora

O primeiro filme de Shyamalan com eles foi A Visita. A história de duas crianças que nunca conheceram os avós indo passar uma semana em sua casa de campo quando coisas estranhas começam acontecer, já demonstrava timidamente resquícios do diretor que havia nos dado alguns clássicos do gênero. M. Night brinca com gênero found footage (que aqui no Brasil alguns chamam de filmes perdidos, como em Bruxa de Blair), num filme que mistura deliciosamente a comédia de humor negro e o horror de um bom thriller.

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Plot twist intensifies

Shyamalan agora estava livre das amarras das grandes produções e da interferência do marketing na sua obra. A Visita proporcionou a ele um terreno seguro e a confiança que precisava pra voltar ao jogo. E então veio Fragmentado.

O filme fala de Kevin, o personagem de James McAvoy, que sofre de Transtorno Dissociativo de Identidade contabilizando 23 personalidades no total. Kevin é suprimido por todas as suas identidades que são mantidas organizadas pela mais sensata: Barry, um estilista atormentado pela sua própria dificuldade de aceitar quem é. Barry e os outros se revezam no uso do corpo de Kevin, num processo que chamam de tomar a luz. Dentre as 23 personalidades, apenas duas são banidas do direito de tomar a luz, pois, são agressivas e creem na Besta, uma suposta vigésima quarta personalidade que chegará numa espécie de ritual canibalístico. As personalidades banidas são Denis, um metódico valentão com TOC e Miss Patricia, uma dama inglesa de uma passivo-agressividade aterrorizante. Os dois tomam o poder com a ajuda de Hedwig, a personalidade infantil de Kevin, e começam o plano para a vinda da besta.

A trama começa quando Denis sequestra três garotas adolescentes num shopping. Entre elas está Casey, a personagem de Anya Taylor-Joy (de A Bruxa), uma garota atormentada por seu passado, mas a mais sensata das três, que vai tentar dialogar com as personalidades de Kevin, para conseguir escapar.

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Não, Black Phillip não é uma das identidades de Kevin…

A partir daí o filme se torna um drama psicológico de primeira, com uma direção de atores fenomenal. Cada personalidade de Kevin tem um valor narrativo que vai brincando com a expectativa do espectador. É frequente o uso da quebra da quarta parede (recurso narrativo que coloca o espectador na cena com os personagens interagindo direto com a câmera) e da imersão do pública no ponto de vista das várias personalidades de Kevin e de Casey (especialmente nos flashbacks de sua infância, que aumentam o mistério da trama inda mais).

Assim como o cenário indefinido do cativeiro das garotas, o filme é labiríntico e super povoado, mas nem um pouco confuso. Shyamalan nos conduz deliberadamente a um sem fim de possibilidades e brinca com nossa expectativa o tempo inteiro, inclusive prolongando o final do filme com várias mini-resoluções bem sucedidas no seu efeito de ilusionismo.

E sim, há um plot twist no final e ele vale muito a pena.

Fragmentado é a volta de Shyamalan ao cinema do qual nunca esteve longe. O longa consegue com maturidade inesperada reconduzir todos os elementos que o tornaram não só um autor, mas uma persona cinematográfica, e os reorganiza de forma a lhe conceder uma autoridade sobre sua obra que nunca havia sido dada anteriormente. O diretor parece nos dizer que sabe tudo o que é e o que significa para o mundo e, assim como um dos seus clássicos personagens, introduz o elemento surpresa na narrativa de sua filmografia: a consciência de si mesmo. tumblr_mray6buHU11s5lw60o1_400.gif

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