Crítica · Música

As 5 melhores coisas do show do Radiohead em São Paulo

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por Daniel Feltrin

Foi no dia 22 de março de 2009 que cerca de 30.000 fãs do Radiohead se dirigiram à chácara do Jóquei em São Paulo para ver o Radiohead que tocaria pela primeira (e até agora única) vez na cidade. Era um domingo típico da época, meio passivo agressivo e ameaçando chuva, mas trazendo mais um mormaço ansioso que refletia as quase oito horas de espera até os primeiros acordes de 15 Steps soarem pelo lamacento terreno do local. O Just a Fest prometia isso mesmo: um festival, mas na verdade o line-up com três bandas era apenas uma formalidade. Mesmo que houvesse alguns fãs ansiosos pela primeira reunião do Los Hermanos em muito tempo e alguns outros mais velhos quisessem muito ver o Kraftwerk em ação, a grande atração da noite era mesmo a banda de Oxford. O Radiohead reuniu ali os mais variados tipos de fãs: novatos que vinham da explosão da música indie nos anos 2000, intermediários, que conheceram Radiohead pelo seu lado melancólico (os famosos fãs da propaganda do Carlinhos, entre os quais me incluo) e os mais velhos fãs, vindos da época em que o Radiohead ainda era uma banda de britpop no começo dos anos 90.

Cheguei com um amigo no local do show dois dias antes. Na sexta-feira o entorno da chácara do Jóquei era um ermo sem descrição. O mato estava mais alto que a gente e tudo era abandonado. Posso dizer literalmente que quando cheguei no show do Radiohead tudo era mato. Obviamente não tinha ninguém na fila ainda. Eramos dois doidos muito jovens pra entender a loucura do que estávamos fazendo. Procuramos abrigo num posto abandonado bem em frente à entrada do local, onde ficamos conversando com um vigia num Uno velho e observamos a fauna noturna que aparecia com a ocasional tentativa de nos vender “estimulantes”. Mas estávamos focados no Radiohead. No sábado, algumas vãs de fãs de outras cidades começaram a chegar e a produção resolver aparar o mato. Não dá pra descrever o tanto de amizades que fiz por causa do Radiohead em 2009. Já havia conhecido os integrantes da banda que toquei em 2009 na fila da compra dos ingressos e, ali naquela espera por algo que seria o melhor das nossas vidas, reconheci em todos a mim mesmo.

Então veio o show e com ele coisas memoráveis, não só para mim, mas para todos que lá estiveram.

O projeto Rain Down

Hoje é comum vermos no youtube gravações de shows dos mais variados, alguns artistas até utilizam a ferramenta stories do Instagram para transmitir seus shows ao vivo, mas em 2009 a qualidade dos aparelhos não era a melhor, mesmo que a vontade de transmitir a todos a emoção de um show fosse a mesma. Foi nessa toada que o paulistano Andrews Guedis remontou o show com parte que foi transmitido pela Multishow na época e uma porção de vídeos feitos pelos quase 30.000 fãs na plateia, compilando, editando e adicionando boa parte da gravação da mesa de som local, documentando assim o show por completo e de vários ângulos. Batizado de projeto Rain Down (por causa do momento épico de Paranoid Android) a iniciativa continua sendo um dos melhores tributos já feitos por fãs.

O In Rainbows na íntegra.

Todo mundo já esperava: O Radiohead tocaria o aclamado disco In Rainbows na íntegra. O sétimo disco dos caras é um dos favoritos da década passada. Lançado primeiro para download em 2007 no inovador sistema “pague o que você achar válido”, Rainbows caracteriza-se por ser um disco mais orgânico que preza pelo uso dos instrumentos mais tradicionais fugindo um pouco do direcionamento mais eletrônico que o Radiohead vinha seguindo nos últimos anos. Sendo o primeiro disco que a banda lançou após cumprir o sufocante acordo com a gravadora EMI (muito do quanto eles se sentiam mal com esse acordo a gente pode ver no disco anterior Hail To The Thief, cujo nome é uma alusão justamente a essa impessoalidade da indústria musical), o disco tem uma sonoridade mais livre e completamente original. Ver todas as canções deste disco espaçadas no repertório rico do Radiohead foi uma oportunidade única.

As canções inesperadas

Por mais que já fosse possível ver o setlist que a banda vinha tocando na turnê de In Rainbows algumas canções tiveram um prazer um tanto inesperado para muita gente. Petardos como Climbing Up the Walls e The Gloaming, que são canções menos conhecidas e de estruturas que não parecem ter lógica num repertório de quem tem hinos como Just e No Surprises (que não foram tocadas em São Paulo assim como quase nenhuma canção do Pablo Honey), figuraram no conjunto de canções do show. Mas a cereja do bolo mesmo foi a inclusão da inesperada Talk Show Host. Lado B da época do Ok Computer essa canção cheia de uma sensualidade atípica no Radiohead causou furor quando seus primeiros acordes de guitarra soaram justamente depois da esquisita The Gloaming.

A interação com o público

O público gritava “Jonny, Jonny” quando grande parte da banda saiu do palco para o tom mais intimista de Faust Arp, performada apenas pelo guitarrista e por Thom Yorke. De natureza tímida, Greenwood não resistiu e acenou de forma desajeitada, mas respondendo ao caloroso abraço dos fãs. A banda toda parecia ter embarcado conosco nessa noite memorável. Fora o protocolo do show, que já nos presenteava com uma iluminação linda e performances únicas (como o já mencionado dueto ou a linda câmera focada no rosto de Thom quando este foi ao piano para tocar You And Whose Army), a banda respondeu ao público nas várias vezes em que este simplesmente tomava controle do show. Aconteceu duas vezes: o coro em Karma Police foi gigantesco. Como dizia a letra, por um minuto ali nós nos perdemos. A canção havia terminado, mas o público não parava de cantar. A primeira vez foi de estranhamento, a segunda de catarse. No primeiro bis eles tocaram Paranoid Android e o coro voltou, dessa vez Thom Yorke também. 30000 pessoas entoavam “Rain down, rain down on me” e Thom com todo o seu carinho voltou com seu violão e cantou os versos que nos abençoava “Deus ama seus filhos, Deus ama seus filhos, yeah”. Poderia parar por aqui, mas houve mais um momento, um momento que não sei se todos viram. Não sei exatamente em que momento, mas eu tenho certeza de que vi Thom ajoelhar para nós como se dividisse com a gente todo o amor presente ali. Posso ter imaginado, mas eu acho que não.

O terceiro bis

Na fila do show era consenso que não era necessário revisitar as primeiras canções da banda. E por primeiras canções a gente queria dizer Creep. A sonoridade da banda tinha crescido e não fazia sentido tocar as músicas que menos tinham a ver com eles no momento. A gente não podia estar mais errado. O terceiro bis não estava exatamente planejado. Pode ser que os caras tivessem essa carta na manga, caso fosse necessário. E necessário foi. Seria impossível tirar o público dali enquanto eles não voltassem para tocar pelo menos mais uma canção. Creep é talvez a canção mais conhecida do Radiohead. É a canção que faz o esterótipo que o público geral tem da banda como banda depressiva e triste. Radiohead é bem mais que isso, mas que atire a primeira pedra quem nunca achou Creep genial. Eu duvido que não tenha um fã que não saiba a letra inteira e a prova está no terceiro bis do show. Quase trinta mil pessoas cantando que são “Bizarros, são esquisitos, que diabos estavam fazendo ali, não pertenciam ali” foi algo único. Terminar por onde tudo começou, sem vergonha, com um sentimento coletivo de missão cumprida. Com certeza foi o melhor show da minha vida.

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