Crítica

Sem carisma, Punho de Ferro demonstra problemas crônicos nas adaptações de heróis.

por Daniel Feltrin

A série do último d’Os Defensores estreou na última sexta-feira (17) na plataforma da Netflix e o senso geral do público corrobora a avaliação prévia da crítica: Punho de Ferro não empolgou.

Finn Jones é Danny Rand, um garoto de família rica que volta dos mortos como um lutador exímio de artes marciais conhecido como o Punho de Ferro, uma espécie de guardião da cidade mística de K’un L’un onde foi criado. Danny havia sobrevivido ao acidente de avião que matou seus pais, Wendell e Heather, pois foi resgatado por monges da misteriosa cidade. K’un L’un só aparece no mundo visível a cada 15 anos e é numa dessas aparições que Danny volta a Nova Iorque para reassumir sua identidade e retomar a companhia da família que agora é comandada por Joy e Ward, herdeiros de Harold Meachum, sócio do pai de Danny na empresa e que, supostamente havia falecido três anos depois do desparecimento dos Rand.

Danny passa a temporada lutando contra inimigos ocultos que nunca ficam bem definidos. Hora é o Tentáculo, organização criminosa ninja que havia aparecido em outras séries da Marvel na Netflix, hora é Harold Meachum que aparentemente não está morto. Muitas vezes o inimigo é o próprio protagonista que passa boa parte da primeira temporada buscando sua identidade tanto como Danny Rand como Punho de Ferro. Enquanto isso a série foca nos conflitos entre os Meachum e os Rand, tomando uma boa parte da história com estas questões.

Alguns culpam esse excesso de drama familiar e a falta de ação que está bem espaçada pela primeira temporada como o problema principal do fracasso de Punho de Ferro. A reclamação de narrativas lentas é algo que tem sido recorrente nas adaptações das séries da Netflix para a Marvel, o que, em parte, demonstra uma certa dificuldade do público alvo a se adaptar a uma narrativa mais alongada, própria da mídia seriada de televisão. Acostumados aos filmes de super-herói que dedicam um primeiro ato muitas vezes curto à origem do personagem e logo mergulham na ação que o gênero pede, o público muitas vezes se vê preso a uma história mais “arrastada” que uma série de 13 capítulos exige.

Essa não é uma queixa que acontece apenas com séries baseadas em quadrinhos, no entanto. Game of Thrones e Walking Dead são alvos frequentes de fãs que reclamam dos episódios sem ação. Porém enquanto a primeira usa os episódios dramáticos para reforçar os intricados conflitos políticos de sua complexa trama, a última realmente acusa o golpe com episódios sem sentido que estão lá mais para completar a demanda de 16 episódios por temporada do que para o bem da série.

Punho de Ferro parece sofrer desse problema. Em meio a defeitos técnicos e acertos no drama familiar, sua principal falha foi não atender às expectativas em volta do personagem.

O personagem foi criado nos anos 70 por Roy Thomas e Gil Kane e sua característica principal é o misticismo que envolve a cultura das artes marciais, tão populares na época. Quem contava com esse aspecto como diferencial de Punho de Ferro se decepcionou, pois, as lutas são mornas e os efeitos especiais repetitivos e muitas vezes desnecessários. Uma cena que exemplifica bem o uso ruim da técnica acontece no segundo episódio da série quando Danny conta ao psiquiatra sobre seu acidente de avião. Enquanto a atuação de Jones parece dar conta da dramaticidade necessária ao texto, a produção insiste em intercalar a mesma cena mal feita de meditação do personagem no cume de um pico em meio a neve.

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De frente pelo menos tem a cara do Finn Jones

É unanimidade a decepcionante manifestação do punho de ferro como uma simples mão iluminada.

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puny Iron Fist!

De fato, o lado místico de Punho de Ferro fica de lado. K’un L’un mal aparece e quando o faz é imbuída de uma estética asséptica e efeitos ruins. A série trabalha bem melhor o drama familiar que baseia sua história de origem. A busca de Danny por si mesmo enquanto tenta reatar os laços familiares com Joy, Ward e o próprio Harold parece tentar explicar narrativamente o por quê da relutância da série em mostrar o Punho de Ferro estabelecido e literalmente chutando bundas, porém isso só faz afastar o público que enxerga a insegurança do personagem como enrolação.

É como se os produtores segurassem todo o potencial do Punho de Ferro para tentar ligar seu desenvolvimento com a série dos Defensores que está prevista para estrear esse ano. Jessica Jones e Luke Cage trabalham suas próprias temáticas sociais de forma bem sucedida, enquanto Demolidor abre espaço pro forro de vilões, heróis e anti-heróis urbanos da Marvel. Já Punho de Ferro não consegue responder à expectativa do misticismo característico do herói. O que é decepcionante, já que o filme do Doutor Estranho abriu caminho para o lado sobrenatural da Marvel, não deixando nenhum motivo para não se investir nisso em Punho de Ferro.

Isso nos leva a pensar no outro lado da moeda. Enquanto o público alvo das adaptações de quadrinhos tem problemas em aceitar narrativas mais lentas, a indústria tem uma dificuldade crônica de se abrir completamente à suspensão da descrença que  a fantasia de uma adaptação de super-herói pede. É compreensível que numa história de origem exista o conflito de identidade e as falhas que todo personagem principal tem em sua jornada do herói, no entanto, o equilíbrio entre o drama e a ação ficou a desejar e a expectativa em torno do misticismo do personagem não foi atendida. Isso mascarou os bons momentos da série como as atuações de David Wenham (Harold Meachum) e Jennifer Henwick (Colleen Wing).

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Ei, Netflix que tal fazer um Spin-off de Filhas do Dragão, hein?

Se a intenção era mostrar um Danny Rand que é mestre nas artes marciais, mas uma criança de dez anos nas suas relações interpessoais buscando para achar o equilíbrio entre ser o Punho de Ferro e o herdeiro de um império que se condensasse isso em 8 episódios de forma mais equilibrada, tentando mostrar a série como sua verdadeira função de elo final para a série maior d’Os Defensores. Teria funcionado melhor com o público.

 

 

 

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